O Rei do Sabá


 
Era mais uma tarde quente de verão. Angel, desceu do táxi em frente ao Mercado Central e logo de cara seus sentidos foram invadidos com os gritos dos pássaros e das pessoas nos bares internos. Angel sorriu, aquele era um dos seus lugares preferidos. Com sua sacola de compras em mãos, Angel seguiu pelos corredores labirínticos em busca dos ingredientes para o seu ritual logo à noite. 
Angel tinha os cabelos ruivos, usava uma regata e calças pretas e várias pulseiras em seu braço esquerdo. Nos dedos, vários anéis. Unhas pintadas e all star vermelho. 
Olhos azuis. Piercing no nariz. Um corpo sagrado e consagrado ao Rei do Sabá.
A primeira parada foi na adega. Um bom vinho. Tinto. Seco. Depois, era a vez das frutas: Uvas de vários tipos, figos e morangos. Por último, botões de rosas, as mais belas e vermelhas. Com tudo comprado, era hora de ir embora.
Angel vivia em uma cobertura no Santa Tereza e naquela noite um altar foi erigido do lado de fora. Velas vermelhas e verdes foram postas com protetores  sobre a mesa redonda, entre elas uma máscara em forma de touro. 
As frutas foram dispostas em travessas, as rosas decoraram a mesa e o seu arredor e o vinho foi servido.
Angel se ajoelhou em frente ao altar e acendeu as velas. A lua cheia estava logo acima da sua cabeça. Sua respiração foi cada vez mais se tornando mais funda e Angel pôde sentir sua consciência mudando, principalmente depois de beber alguns goles do vinho. 
De pé, Angel dançou, deixou  o corpo seguir um ritmo próprio e improvisado. Angel girou, rodopiou e gritou até o seu corpo tombar no chão. 
Angel não estava mais em sua cobertura quando abriu os olhos e se sentou. À sua volta, estava uma floresta, iluminada pela lua e por vagalumes. A mesa do altar tinha se tornado uma mesa gigantesca, com oferendas não só suas, mas das outras bruxas. 
Alguém parou logo atrás de si. Uma das bruxas companheiras. A mão foi oferecida para Angel se levantar e Angel seguiu a bruxa para além da mesa. A floresta tinha o ar quente. Angel ouviu vozes sendo carregadas pelo vento. Um tempo depois, uma clareira surgiu diante de seus olhos. Outras bruxas já estavam lá, dançando em volta da fogueira. Angel se juntou à dança, seu corpo se unindo aos outros corpos em um ritmo frenético. 
A luz da lua banhou o chão, de onde uma sombra surgiu. A sombra foi crescendo e tomando forma até se assemelhar a um bode. O bode berrou, o som da tragédia. Depois, seu corpo se levantou do chão, se tornando bípede, humanóide. Os pelos negros foram caíndo, mostrando uma pele marrom. O rosto de bode assumiu a forma delicada de um rosto humano e cabelos encaracolados despencaram sobre os ombros. Apenas os chifres permanesceram. Era o Rei do Sabá. Criatura masculina e feminina, fluida e inconstante, poderosa em sua feitiçaria de bicha. 
Bruxas vestiram o Rei do Sabá com um manto púrpura e o Rei do Sabá caminhou até a fogueira. Lá, o Rei do Sabá chamou as bruxas, uma por uma e lhes deu um presente. Para Angel, o Rei deu uma estrela, ferro alienígena quente e brilhante. Angel agradeceu com um beijo e depositou a estrela em seu coração. 
A dança voltou. A música das flautas embalaram os corpos felizes. As bruxas retornaram à mesa das oferendas e dividiram seus alimentos e bebidas.
 O riso e o gozo era a lei. 

Com o prazer, também veio o contentamento e o sono e as bruxas se despediram do Rei e das companheiras e aos poucos foram indo embora. Angel deu um último olhar para o Rei do Sabá e lhe enviou um beijo no ar, retornando ao seu corpo.
Angel dormiu aquela noite ali mesmo,  em frente ao altar (agora vazio) e sobre as estrelas que brilhavam em conjunto à estrela do seu coração.

Comentários