Florestas Urbanas

 




Dentro das espiritualidades da terra existe uma valorização da natureza selvagem, do poder das matas e do mundo intocado pelo humano, indo a contraponto do argumento de que o humano também faz parte dessa natureza. Utilizamos em nossos rituais artigos que são naturais, fugindo daqueles criados por mãos humanas, que são chamados de artificiais. Considerando a origem da palavra, tenho que concordar. Artificial vem de Artificialis, que é relacionada a arte e artesanato, algo feito, criado. Mas apenas porque algo foi criado e não simplesmente foi formado do corpo de Gaia isso significa que este algo é não- natural ou completamente removido da natureza? O formigueiro é artificialmente criado pelas formigas, ele também então não faz parte da natureza?
Sendo assim, por que o formigueiro faz parte e nossas construções de gesso e tijolo não? Não há nenhuma substância criada por nós que não tenha origem no "mundo natural". Até mesmo o plástico, formado à partir dos ossos milenares de seres separados por nós pelos milhares de anos. Nossas casas são como as casas do João de Barro, apenas um pouco mais metidas a besta ( embora eu suspeite que o João de Barro não recusaria ar condicionado na dele). 
Andando pelo meu bairro, um misto de asfalto, tijolo e árvores, percebendo a presença dos espíritos me veio um insight: Mesmo com todas as camadas humanas eu ainda estava andando na mata. Moro em Minas Gerais, uma terra montanhosa. As montanhas ainda estão aqui, mesmo com o asfalto ( subir as ladeiras do bairro Santo Antônio realmente parece escalar o Everest). A natureza não está longe, na mata intocada pelos humanos. A natureza está aqui.
Naturalmente meu argumento não é uma apologia ao processo capitalista de urbanizar todos os espaços em detrimento das matas in natura. A floresta não pode ser só um grande formigueiro e algumas misturas de elementos são tóxicas e adoecem nossa mãe Gaia. Meu ponto é: Se ainda estamos na floresta, por que não cuidar bem dela? Fazer com que nossa coexistência seja beneficial para todes, humanos, de penas e pelos ou seiva? Pensar nossas cidades como matas vivas e agir para que toda a vida ali seja honrada traz o paganismo para a realidade e o retira da fantasia utópica de um mundo neolítico que já passou.  

Comentários